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21/Sep/2017
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Festas Judaicas (Chaguim)

Chanucá

"Hanukando" - repensando Chanucá

Introdução

Toda festa judaica tem bases histórica, literária, ecológica e/ou ligada à natureza... além de rituais e comidas típicos e simbólicos!

Chanucá congrega estes elementos - fatos históricos (período helenista, revolta judaica), livros pós-bíblicos (Judite, Macabeus, Talmud), natureza (solstício de inverno) - convergindo ao reforço do monoteísmo ético judaico.

Seu simbolismo é fascinante - bem como os questionamentos que suscita. Escrever um pouco sobre eles é minha forma de desejar Chag haUrim Sameach, Feliz Festa das Luzes!

Fatos e lendas [1]

Desde a morte de Alexandre da Macedônia, no ano 323 a.e.c., os governantes gregos da Palestina fizeram contínuos esforços para forçar o povo judeu a abandonar sua fé e adotar as idéias e costumes helenísticos. A maioria do povo resistiu. O Rei Antíoco da Síria, em 175 a.e.c. empregou força, culminando com a profanação do Templo de Jerusalém, obrigando os judeus a ajoelharem-se ante os ídolos que ali instalou.

Na aldeia de Modiin, o sacerdote Matitiahu, da família dos Hasmoneus, colocou-se à frente da revolta, com seus cinco filhos, seguidos de um audaz grupo de judeus. Chegaram a bater seus inimigos, a princípio nos montes da Judéia e, mais tarde em toda a região, até Jerusalém. Foi a luta de um punhado de homens contra uma multidão, de fracos contra fortes. Venceram grandes exércitos sírios, possuidores de elefantes e máquinas de guerra. Como divisa, os judeus inscreveram em sua bandeira as palavras da Torá: "Quem é como Tu entre os deuses, Senhor?", de cujas iniciais hebraicas formou-se o nome Macabeu (Macabi), sob o qual ficaram conhecidos os guerreiros. Makevet, do mesmo radical em hebraico, significa martelo, aludindo aos golpes assentados ao adversário. De acordo com outra teoria, Macabeu era o grito de guerra dos judeus contra os sírios.

Em 25 de Kislev de 165 a.e.c. (3 anos após a profanação), os macabeus entraram no Templo e voltaram a dedicá-lo ao serviço de D'us.

O Talmud acrescenta: "Quando os Hasmoneus venceram os gregos, fizeram uma busca no Templo e encontraram somente um frasco de azeite intacto e inviolado com o selo do Cohen HaGadol (Sumo Sacerdote). Este continha azeite suficiente para iluminar um dia, mas ocorreu um milagre e a menorá permaneceu acesa durante oito dias. Um ano depois, a data foi designada festividade em que se recita o Halel e oração de graças." (Shabat 21b).

Para recordar a vitória dos Hasmoneus e o milagre do óleo, celebramos a festa de Chanucá (inauguração), cujo nome refere-se à reinauguração do Templo, após a vitória.

A luta continuou. Iehuda e seus irmãos Ionatan e Shimon, continuaram fortalecendo o país e revogaram os éditos de Antíoco, proclamado a Judéia um estado independente. Shimon tornou-se Príncipe da Judéia, instituindo a dinastia de Hasmoneus, que ampliou as fronteiras do reino; no tempo do Rei Alexandre Ianai estendia-se do deserto além do Jordão até o Mediterrâneo e do Líbano até Rafia. A dinastia continuou reinando depois da conquista romana em 67 a .e.c até a morte do último rei Hasmoneu, em 37 a.e.c.[2]

Uma explicação menos conhecida para a festa remonta a tempos bíblicos: um ano após o Êxodo do Egito, em 25 de Kislev, foram concluídas as obras do Mishcan, o Tabernáculo.

Não posso deixar de mencionar entre possíveis origens arquetípicas (como outras festas, regulamentadas pelos rabinos sob a égide judaica monoteísta) festividades pagãs para deuses representando o sol, já que nesta época, no hemisfério norte, ocorre o solstício de inverno: os dias tornam-se cada vez menores e, celebrações com luzes e comidas eram realizadas, na esperança do reaparecimento do sol e de um inverno não rigoroso demais.

Celebrando

* Acendemos a chanukiá.

A festa dura oito dias. À noite, acendemos com uma vela auxiliar (shamash) um candelabro de oito braços (chanukiá ou menorat chanucá). Na primeira noite acendemos uma, adicionando outra a cada noite, até a oitava, quando acendemos todas as velas. Uma chama é suficiente para acender a fé e, sendo pura, veremos sua luz aumentar dia a dia. Chanucá é chamada também Chag haUrim, a Festa das Luzes.

A maioria das pessoas usa velas normais de parafina na chanukiá. Outros preferem acender pavios dentro de óleo, em recordação ao milagre no Templo. A azeitona e seu óleo são símbolos do Povo Judeu, porque conseguimos o azeite mais puro prensando a azeitona com força. Na vida sofremos muita pressão e, às vezes, é nas horas perto de quase ruptura, que nossas melhores características despontam e brilham. Perseverar e sobrepujar enormes pressões são desafios decisivos da vida e um tema recorrente na História Judaica.

* Cantamos e rezamos Hanerot Halalu ou Al haNissim (pelos milagres) e Maoz Tsur.

A tradução de Hanerot Halalu (Estas velas) é: "Nós acendemos estas velas pelos milagres e feitos maravilhosos que realizaste para nossos antepassados, naqueles dias, nesta época, por intermédio dos Teus sacerdotes. Durante os dias de Chanucá estas luzes são sagradas e não nos é permitido fazer outro uso delas, apenas olhá-las para podermos agradecer e louvar Teu grande Nome, por Teus milagres, teus feitos maravilhosos e Tuas salvações".

Maoz Tsur (Rocha Poderosa) é um louvor a D'us por ter nos libertado sucessivamente da opressão egípcia, babilônica, persa e helenista. Como as letras iniciais das estrofes formam a palavra Mordechai, supõe-se que seja o nome do autor. A poesia foi escrita por volta do século XIII; a melodia é uma adaptação de uma canção folclórica alemã do século XV.

* Comemos levivot / latkes (panquecas de batata), sufganiot (sonhos) e alimentos de queijo.

As frituras lembram o milagre do óleo; as panquecas e o queijo, lembram a atuação de Judite (ver adiante). Costumo repetir a anedota que o resumo das festas judaicas é: "Tentaram nos derrotar. Vencemos. Comamos!" Estas comidas simbólicas caracterizam a culinária judaica e influenciaram a universal. Assim como encontramos em Pessah a origem do sanduíche[3], Chanucá "institucionalizou" a batata frita, os crepes, queijos e vinhos, cheese cake e donuts!

* As crianças brincam com sevivon (hebraico savov = girar) ou dreidel (ídishe dreyen = girar).

Embora jogos de azar sejam proibidos pelo judaísmo, em Chanucá jogamos um pião de 4 faces, com uma letra hebraica inscrita em cada, iniciais das palavras que formam a frase Nes Gadol Haia Sham = um grande milagre aconteceu lá. Em Israel troca-se a última letra por pê (de pó = aqui). Cada face tem um valor numérico, que determina o vencedor do jogo. Na época do domínio sírio, o estudo da Torá era proibido sob pena de morte, e o Talmud era estudado oralmente, em grupo. Para contornar a proibição e camuflar as reuniões de estudo, levavam consigo piões. Quando uma autoridade síria chegava, começavam a girar o pião, fingindo estarem se divertindo, sendo um jogo comum na época.

* Costumamos dar dmei Chanucá ou Chanucá guelt (dinheiro) para as crianças.

Assim lembramos as moedas cunhadas pelo Macabeus após a vitória. Pedagogicamente, visa a participação ativa das crianças em homenagem ao menino que encontrou o frasco de azeite, com uma quantia para fazerem o que quiserem, como comprar doces para alegrar a festa: educando com identificação e motivação!

As luzes

A fim de distinguir as luzes de Chanucá, elas são acesas em lugar diferente de onde são acesas o ano inteiro, imediatamente após o surgimento das estrelas. As velas ou o azeite deverão iluminar pelo menos por meia hora. Até algum tempo atrás, colocava-se a chanukiá do lado de fora da casa, na entrada. Devemos acender perto de uma janela ou porta para pirsumei nissá, divulgar publicamente o milagre (Shabat 21b 23b). As luzes de Chanucá devem ser uma fonte de fé e inspiração para todos os homens, de todos os credos e povos.

Antes de acender a chanukiá na primeira noite, dizemos três bênçãos; nas seguintes somente as duas primeiras. A segunda é: Baruch atá Ado-nai Elokenu melech haolam sheassá nissim laavotenu baiamim hahem bazman hazé (Bendito és Tu Senhor nosso D'us Rei do Universo, que fez milagres para os nossos antepassados naqueles dias, neste tempo).

Quando dizemos "naqueles dias, neste tempo" (como em HaNerot Halalu), reafirmamos a crença no judaísmo atemporal, vinculando nosso presente ao nosso passado e ao futuro.

Milagres continuam acontecendo, todos os dias. Todos nós conhecemos ou vivemos uma estória real com o miraculoso toque divino. Talvez sem os "efeitos especiais" de milagres do passado; talvez sem uma visão especial nossa, sem que os percebamos como tais...

Repensando

Chanucá destaca a atuação de duas heroínas: Hana, que negou-se a renunciar à sua religião, não cedendo nem mesmo quando seus 7 filhos foram mortos, um após o outro, e foi também morta e Judith, que conseguiu iludir o general inimigo Holofernes servindo-lhe panquecas de queijo e embriagando-o; cortou sua cabeça e entregou-a a seus compatriotas. Seu desaparecimento desmoralizou os soldados, que fugiram da cidade, livrando-a do cerco.

Chanucá simboliza a luta de poucos contra muitos, dos fracos contra os poderosos, a luta pela liberdade de culto - a eterna luta do povo judeu por sua existência.

Os Macabeus rejeitaram idéias pagãs que ameaçavam a continuidade do Judaísmo, porém incorporaram o que era compatível com valores judaicos.

Conseguiremos desenvolver uma identidade que nos permita conviver com o mundo exterior sem nos sentirmos ameaçados e, ao mesmo tempo, apreciar e assimilar o que há de bom em volta? Dependendo de como internalizamos os valores judaicos podemos interagir com o mundo como judeus e como cidadãos universais. No dizer do Rabino Sobel, a luta dos Macabeus ensina que "particularismo e universalismo não são mutuamente exclusivos. Não podemos e não devemos optar entre o gueto e a assimilação." [4]

O professor Sami Goldstein escreveu sobre um lindo e inspirador aspecto simbólico: "A Chanukiá simboliza a humanidade. Cada vela representa o ser humano, uma vez que "a alma do homem é a vela de D'us" (Provérbios 20:27). O Shamash - a vela com a qual acendemos as demais - representa nosso desafio perante o mundo em que vivemos.

Em nosso cotidiano, freqüentemente nos deparamos com pessoas cujos "pavios" estão apagados. São aquelas que, por qualquer motivo, estão tristes, sozinhas, desamparadas ou abandonadas. A escuridão de suas vidas torna-se cada vez mais densa à medida que seus objetivos parecem-lhe mais e mais distantes ou até mesmo impossíveis. Pessoas estas que não precisam de muito; apenas de nossa atenção, carinho, amor e dedicação. Mesmo em meio à multidão, não conseguem ver sua chama brilhar; não são vistas.

Nossa missão é doar nosso brilho e fazer com que elas tenham calor humano correndo em suas veias. Compete-nos fazer com que se sintam amadas, respeitadas, valorizadas e especiais. Mas é importante notar que todas estão no mesmo nível. E, mais fundamental ainda: a Mitzvá só é cumprida em sua plenitude quando todas as velas são acesas em conjunto. Somente unidos- juntos e presos pelos mais resistentes elos da dedicação ao outro - poderemos garantir que Chanucá continue sendo motivo de orgulho por gerações. [5]

Podemos ser velas, dissipando a escuridão. Um ilumina um canto; juntos, o mundo.

Lembremos ainda que Chanucá vem do mesmo radical hebraico de chinuch, que significa educação. E educação não se promove com grandiosos prédios, mas com valores e práticas.

Será que os judeus de hoje se posicionariam ao lado dos Macabeus? Será que você seria um Macabeu?[i] [6] Os gregos trouxeram civilização e progresso aos lugares que conquistavam, incluindo em seu panteão de deuses, os dos povos conquistados. Exigiam a aculturação, dentro do caldeirão da civilização e religião gregos. A comunidade Judaica estava dividida. Alguns acreditavam ser a assimilação positiva, uma influência modernizante. Um pequeno grupo se opôs e preparou-se para lutar e morrer para preservar o Judaísmo.

Não foi uma guerra por princípios abstratos de tolerância religiosa, mas uma batalha contra a assimilação, lutada por quem a Torá era sua vida e inspiração. Nós estaríamos com os Macabeus ou acharíamos que a assimilação era o caminho para o futuro? Vivemos uma crise de identidade como há 2.500 anos...

Muitas questões permanecem em aberto. Seriam os Macabeus somente baluartes da fé, guerrilheiros ou exacerbados nacionalistas? Ou uma combinação dos três?

E as heroínas, de atitudes extremistas? Pergunto-me, enquanto mãe, se seria capaz de assistir a morte de meus filhos, mesmo por Kidush haShem (fidelidade e santificação de D'us) ou se, como séculos mais tarde, na Península Ibérica, optaria por fugir ou por aceitar uma conversão aparente – para santificar D'us em vida e não com a morte... E Judite? Não teria sido ela a maior estrategista, planejando e executando a liderança do exército inimigo?

Seria Chanucá uma sábia forma de absorver judaicamente festejos populares pagãos, determinando um novo sentido, envolvendo o povo, motivando-o ao invés de afastá-los do judaísmo de forma sectária? Ou uma batalha da eterna luta contra a assimilação? Ou uma reação contra os próprios judeus helenizados?

Qual o real milagre de Chanucá? A vitória militar? O óleo puro que durou oito dias? A participação decisiva das mulheres num mundo machista?

Ou estarmos agora, milênios depois, celebrando e repensando Chanucá e/ou termos sobrevivido como judeus através da História?

Felizmente não temos respostas definitivas! Espero que as luzes de Chanucá iluminem nossos corações e mentes na busca de respostas (e novos questionamentos!), que permaneçam ardendo e mantendo o fogo da fé que aquece corações, não a tocha do ódio ou fogueiras de vaidades, e que possam ajudar a romper as trevas dos tempos tenebrosos de terror que estamos vivendo, iluminando e eliminando a intolerância!

---A autora é Doutora em Língua Hebraica, Literaturas e Cultura Judaica - USP, Professora e Coordenadora do Setor de Estudos Hebraicos da UERJ, Professora do ISTARJ, Fundadora e ex-Diretora do Programa de Estudos Judaicos - UERJ, Professora e Coordenadora do Setor de Hebraico - UFRJ (aposentada), Coordenadora do Grupo de Estudos Beer Miriam-ARI, membro do Diálogo Judaico-Cristão, escritora

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[1] Ver livro da autora "A luz da Menorá", Capítulo IV, m. (p.82 a 86)

[2] Ver www.hebraica.org.br/culturajudaica/Chanuca/index.htm

[3] Ver artigo da autora "Pessah e a origem do sanduíche", www.riototal.com.br/comunidade-judaica - Variedades

[4] Os Porquês do Judaísmo, Capítulo 12: Chanucá Rabino Henry Sobel www.cipsp.org.br

[5] O Brilho da Fé, do Prof Sami Goldstein, Sinagoga Francisco Frischmann de Curitiba www.netjudaica.com.br

[6] Ler artigo do Rabino Nachum Braverman de Los Angeles, Meor haShabat, www.eifo.com.br/indexpar.html

Autor: Profª Drª Jane Birmacher de Glasman
Fonte: Profª Drª Jane Birmacher de Glasman