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25/Sep/2017
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Festas Judaicas (Chaguim)

Chanucá

Chanucá - Para quê a luz?

Como sabemos, nossos sábios adotavam uma postura ambígua em relação à festa de Chanucá. Por um lado, ela é mencionada na Mishná e na Guemará, mesmo que de forma muito limitada. Mas, por outro lado, não são mencionados os reis da casa dos Hashmonaim e eles são até criticados, como a dizer que este movimento de restauração eclesiástica por mais que tenha começado com bons objetivos terminou em um fiasco político e na destruição do nosso Beit Hamikdash.

Não há dúvidas de que, no seu início, se tratava de um movimento restaurador muito forte. A força do movimento é a própria força da Torá, cuja luz iluminou os heróis de Chanucá para conseguirem as façanhas que realizaram.

Para recordar estes fatos, acendemos as luzes da chanukiá ou, simbolicamente, acrescentamos luz onde falta, iluminando assim a vida das pessoas mais afastadas. Se analisarmos as leis de Chanucá, veremos que os próprios detalhes da prática desta mitzvá revelam alguns dos seus segredos.

O Talmud [Shabat, 21b] diz: "A mitzvá de acender é desde que se põe o sol até que terminam as pernas no mercado". A intenção prática é que a mitzvá tenha um intervalo definido de tempo - desde o pôr do sol até que não haja mais gente na rua, o que nos deixa entre 30 e 40 minutos com a chanukiá acesa. E por quê? Porque toda a idéia da chanukiá é 'pirsume nissá' - a divulgação do milagre. Por isto, acender quando já não há gente na via pública não faz publicidade de nada e não tem vigor. Nas entrelinhas enxergamos outra interpretação desta regra da Halachá, algo mais ligado aos nossos dias. O início do tempo de acender é definido como mishetishka hachamá - desde o pôr do sol. Mas talvez a idéia seja falar de modo geral sobre a época em que há uma forte necessidade de acender as luzes da Torá. Elas devem ser acesas quando faltam as luzes, nos tempos difíceis, de escuridão, quando se põe o sol do mundo, quando as pessoas se sentem desorientadas. Este é o momento de divulgar a nossa luz espiritual, cumprindo o conceito da chanukiá, de pirsume nissá, divulgação do milagre. A Guemará nos diz que a luz de uma única vela não se destaca em pleno dia. Confrontada com a magnífica luz do sol, a pequena chama de uma vela não tem sentido nenhum.

A Mishná, no fim do tratado Sotá, previu nossa época dizendo que "no calcanhar do Mashiach, a falta de educação crescerá, a vida será mais cara, a videira dará frutos mas o vinho será caro... a sabedoria dos sábios desaparecerá... faltará a verdade, os jovens não respeitarão os velhos, os velhos se colocarão em pé diante dos jovens... sobre quem poderemos nos apoiar? Sobre o nosso Pai dos céus".

Durante gerações, o mundo era pleno de valores e cada povo tentava seguir uma linha de ética. Neste contexto, a luz da Torá não chamava tanto a atenção. Mas na atualidade, no nosso mundo pós-modernista, quando há uma enorme escuridão espiritual, uma profunda crise de valores, quando ninguém sabe, filosoficamente, discernir entre o bem e o mal, a propagação da Torá se torna ainda mais importante. E o mérito daqueles que se dedicam a isto é maior porque eles estão, virtualmente, salvando e iluminando a humanidade.

Até quando vamos nos esforçar propagando a luz da verdade?

Disse a Guemará: "até que desapareçam a pernas do mercado". Perna, em hebraico, é reguel, da mesma raiz que raguil – acostumado. Novamente nos traz Guemará uma indicação para momento atual: nosso trabalho terminará quando a humanidade superar esta fase atual, da "sociedade de consumo", onde, às vezes, a única medida do valor de uma pessoa é o seu peso em ouro. Partes fundamentais da nossa crise provêm do fato de que tudo está projetado e produzido sob medida para o consumidor. Que, aliás, sempre tem razão. Esta não é uma postura ética de valor e sim mero comodismo. Modificar esta postura, indicada na Mishná que mencionamos, e a idéia de divulgar o milagre da Torá deve ser nosso foco de trabalho até conseguirmos transformar essa triste realidade.

Qual a forma e mentalidade necessárias para se empenhar nessa tarefa?

Uma outra regra famosa das leis de Chanucá nos dá pistas para resolver esta questão. A Guemará disse: "O acender da chanukiá faz a mitzvá e não o fato de colocá-la em um certo lugar". Acender, em hebraico, se diz hadlaká – da raiz delek, combustível. Significa dizer que nossa postura tem que ser a de pessoas conscientes de sua responsabilidade, e esta consciência, numa sociedade moderna, nos exige muito dinamismo e criatividade. Temos que acrescentar e desenvolver o tempo todo novos argumentos, idéias frescas, para atrair cada vez mais público para dentro do caminho da Torá. O contrário disso é uma postura de hanachá da raiz noach - cômodo, que traduz-se em uma postura apática, não dinâmica, buscando o descanso e as soluções fáceis para os problemas.

Isto guarda uma estreita relação com a nossa parashá, que começa querendo contar sobre a descendência de Yaacov e termina contando a longa e complicada história de Iossef, com todos os problemas e os anos de tristeza que trouxe para Yaacov. Sobre este fato, o Midrash trazido por Rashi nos conta que Yaacov, depois dos anos de sofrimento com Lavan, em Aram, e do difícil reencontro com Essav, já queria descansar em Israel. Mas D'us não permitiu e trouxe o problema com Iossef. Por quê? Porque "os tzadikim não tem descanso nem neste mundo nem no mundo vindouro". Esta deve ser uma característica do tzadik - o dinamismo e o crescimento contínuos, para poder atualizar e divulgar cada vez com força renovada a palavra da Torá, até alcançar o conserto mundial.

Fonte: Bnei Akiva SP