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27/May/2017
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Festas Judaicas (Chaguim)

Shavuot

Mulheres e Identidade

A proximidade de Shavuot nos convida ao pequeno exercício de ler o texto de Meguilat Ruth posicionando a mulher no centro de nossa leitura. Neste caso, o desafio será relativamente fácil, já que a voz feminina é ouvida através do texto, praticamente a cada instante.

Começemos observando que Ruth não é a única mulher da história. Já no começo do livro fica clara a existência de outra figura dominante, a de Noemi.

Noemi, esposa de Elimelech, aparece mencionada pela primeira vez na relação com seu marido, mas seu protagonismo começa justamente depois da morte deste. E num instante se invertem os papéis: Noemi regressa à terra da qual havia saído com seu marido, - e algumas interpretações dizem que de fato foi castigada por não impedir seu marido, que abandonara a Terra de Israel num período de fome. Conforme as normas da Halachá, a mulher pode se opor a que o marido a obrigue a abandonar a Terra de Israel (Shulchan Aruch, Even Haezer 75, 3-4). Tal é a importância da permanência na Terra de Israel, que isto pode ser considerado causa de um divórcio quando uma das partes do casal deseja emigrar da Terra de Israel e a outra não. Noemi não se opôe à saída do país nem à aculturação dos filhos, que acabam se casando com mulheres moabitas, Ofra e Ruth. Se bem que alguns consideram que a desgraça que lhe acontece ao perder o marido e os filhos está relacionada a este motivo, prefiriria uma linha interpretativa um pouco mais sensível às relações humanas. Some a isso que, no texto do livro de Ruth, as relações neste família não estão descritas em detalhes, e, como em todas, certamente eram muito complexas.

Tratemos de imaginar a cena de uma mulher que perde marido e filhos e se encontra totalmente sem posses e desprotegida em um país estranho. Noemi tem a força de empreender no caminho de volta. Há os que querem ver neste ato debilidade e não força, no entanto, Noemi não ficou paralizada. Frente ao luto por perdas muito menores, muitos ficam imobilizados, mas Noemi tira força das fraquezas e age. Este fato significa valor. Noemi demonstra muito domínio e valentia para regressar ao espaço social do qual havia partido rica e prestigiosa e ao que regressa praticamente "sem nada".

O Livro de Ruth bem poderia ser o de Noemi

O livro é de Ruth, talvez porque Ruth assume compromissos e riscos ainda maiores.

Ruth, que bem poderia ter permanecido com os seus, opta por partir. Opta por mudar. Aqui se ressaltam suas características e sua capacidade de transformar, de agir, de renovar-se e de elevar-se espiritualmente. Uma tenue linha quase invisível a une com Esther, com quem comparte os textos canônicos, e que em seu tempo e circunstâncias teve que enfrentar-se com dificuldades que também a forçaram e lhe deram força para decidir por si.

Esther e Ruth, estão unidas na busca por sua identidade. Ambas optam por ser judias quando bem poderiam ter escolhido não ser. Ruth provinha de um povo estrangeiro repudiado pelos israelitas numa ação anterior. Esther, nascida judia, leva dois nomes: Hadassa (Mirta), seu nome judaico, e Esther, nome comum entre os assimilados de então. Hoje, Esther e Ruth são nomes tipicamente judaicos, como homenagem aquelas que os portaram com orgulho. Ruth e Esther arriscaram em sua escolha parte de sua própria vida. Seus inícios no judaísmo não foram rituais, mas sim existenciais.

Esther, que havia ocultado sua identidade, poderia ter continuado com a farsa, afinal, havia ocultado-a para se candidatar para ocupar o lugar deixado por Vashti, a soberana do Império. Nada perderia da luxuosa vida no palácio se tivesse mantido o silêncio. Logo, ativa e valentemente, se apresenta com sua verdadeira identidade ao soberano, e jejua durante três dias e três noites. Talvez, foi destas jornadas significativas de recolhimento e reflexão que sai decidida e fortalecida para poder agir comprometidademente. Põe em perigo seus privilégios e sua vida para iniciar o caminho solidário com seu povo.

A transformação de Ruth é ainda mais radical. Da distância à pertinência. De ser estrangeira a ser parte do corpo social. De um destino distante a assumir o nada simples destino histórico do povo judeu. Não é somente o destino de Noemi o que escolhera. Com ele, recebia sua fé e seu destino nacional. Ruth corta com a casa materna, como Avraham com a sua, e se incorpora ao povo por escolha e por fé. Ruth se converte no paradigma dos que elegeram, ao longo da história, incorporar-se ao povo judeu guiada por uma convicção inquebrável e não pela conveniência da moda, nem sequer por amor a um homem. Neste sentido, se bem que pareceria ser o contrário, o fato de incorporar-se ao povo faz com que recaiam sobre ela as normas familiares e legais que até este momento lhe eram alheias. E, portanto, está disposta a ser tomada como esposa de Boaz. Se bem que também não há dúvida de que este é um ato economicamente conveniente a ela e sua sogra, não foi este o motivo da conversão, mas sim sua conseqüência.

Voltemos ao relato: "Então as duas mulheres seguiram caminhando até chegar a Belém. Logo que chegara, houve uma grande comoção em todo o povo por sua causa".

O texto não nos conta o que elas conversaram no caminho de Moab a Belém. Talvez caminharam em silêncio, cada uma com suas idéias. O que é certo é que compartiram várias horas perambulando pelo deserto. No princípio Ruth não fala, mas se agarra a Noemi. O termo hebraico utilizado é "davká", que poderia ser traduzido como se "colou" ou se "aderiu", ou seja, a primeira reação não leva a palsavras, mas além, o termo hebraico é geralmente utilizado para manifestar a comunhão espiritual, assim em Deuteronômio 4: "vocês que seguiram unidos ao Senhor, estão todos vivos", a palavra hebraica do texto é dvekim, da mesma raóz que davká, do qual fica claro que a "aderência" da que trata não é física. Não se "agarrou" fisicamente, como poderíamos imaginar na cena da despedida, mas como sugere o texto imediatamente: se uniu a seu povo e sua fé.

Como sabemos, Boaz se casa finalmente com Ruth.

Ao nos aproximarmos do final da história, é hora de refletir sobre alguns pontos.

O livro de Ruth tem contrastes e paralelismos. Podemos notar nele a relação distinta das mulheres para com Noemi no princípio e ao fim do relato. Também o repúdio que sentem por Ruth ao princípio, que logo se converte em elogios. Aí também as protagonistas são mulheres. Podemos nos deter na relação com as noras, personagens indepedentes cada uma, que vão em busca de seus próprios destinos. Uma escolhendo o lógico, Ruth, efetivamente. Ruth deve enfrentar-se com o encargo de sua sogra de apresentar-lhe a Boaz, que não há havia visto até então, e a quem deveria tentar seduzir. E o consegue.

Noemi leva sileciosamente o peso de seu sofrimento, e unee-se ao sofrer de sua nora. Também Ruth se mantém no silêncio feminino tão conhecido em outros textos, e nos obriga a preenchê-lo com nossas próprias palavras e pensamentos. Somente é eloqüente como escolhe seu destino. Ali parecera livre de todo o sentimento reprimido. Quem fala sem parar é o personagem masculino Boaz, que parece necessitar explicar e fazer, fazer e explicar, pretendendo ocupar o centro da ação da qual foi deslocado pelas mulheres.

Ruth e Noemi, que souberam aceitar a dor com amor, que encontraram maneiras de superar o luto e o desespero, a angústia e a depressão, são descritas na história como exemplos de um modelo de mulher, sobre o qual dificilmente saberíamos imaginar sem ler o texto do livro. Mulheres, que na luta por seus direitos, se animarão também a atos que, ainda em nossos dias, a 3000 anos de distância, são vistos como descuidados.

Vale a pena reler o texto neste festa!

Autor: Ethel Katz de Barylka
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