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19/Sep/2017
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Religião Judaica

Ética Judaica

Podemos considerar os boicotes como uma forma legítima de combater os preços altos?

Podemos considerar os boicotes como uma forma legítima de combater os preços altos?

Um produto essencial em nossa comunidade é vendido por duas grandes companhias e algumas outras pequenas, e todas praticam preços semelhantes. Os recentes aumentos de preço foram ultrajantes. Um boicote generalizado de um produto essencial não é muito viável, mas podemos boicotar as grandes companhias, que acreditamos que estejam por trás destes aumentos?

Na coluna da semana passada (O Judeu Ético 112) explicamos que a tradição judaica é simpática ao direito dos trabalhadores se organizarem para o benefício de todos, mas que este direito deve ser usado de modo responsável. Exatamente a mesma declaração pode ser feita com respeito aos consumidores. O Talmud registra uma série de casos onde os boicotes foram utilizados para baixar preços; entretanto, como veremos, estes envolveram uma série de justificativas em comum.

No Talmud, encontramos casos distintos em que vendedores tiraram proveito do fato dos judeus serem rigorosos no cumprimento dos mandamentos e insistentes em comprar objetos da melhor qualidade para o cumprimento de suas mitzvot.

Os vendedores consideravam os compradores como se estivessem "sobre um barril de pólvora", isto é, sob pressão, e exploravam este fato para elevar preços. Por exemplo, o Talmud registra certa vez em que os preços dos melhores produtos para os arba minim, as "quatro espécies" (etrog, lulav, hadas e arava) que são usados em Sucot estavam exageradamente altos. Em cada um destes casos, o rabino impôs um verdadeiro boicote a um item excessivamente caro ao instruir as pessoas que, temporariamente, não havia mais qualquer necessidade religiosa daquele bem; no caso mencionado, a ordem foi que os produtos mais simples estavam perfeitamente adequados.

(1) Há quatrocentos anos, um rabino também ordenou aos seus congregados que evitassem comer peixe no Shabat por algumas semanas, embora comer peixe fosse considerado um modo de aumentar o prazer do Shabat; a razão era que os comerciantes de peixe do local formaram um cartel para elevar preços, sabendo que os judeus pagariam o que fosse em honra do Shabat.

(2) As situações citadas têm em comum duas características que deram aos vendedores uma posição privilegiada e injusta para a negociação. Em primeiro lugar, desde que o item fosse uma necessidade, os vendedores tinham os compradores sob pressão; segundo, eles se uniam num cartel; a união dos consumidores em um boicote era necessária para que se criasse um "poder de contraposição".

Estes elementos correspondem a duas importantes justificativas para que os trabalhadores se unam: 1) os empregadores geralmente não sofrem muito devido a alguns poucos meses de mau desempenho, ao passo que o trabalhador fica desesperado devido ao seu salário mensal (trabalhadores sob pressão); 2) é fácil para um número relativamente pequeno de empregadores organizar em um cartel, implicitamente ou não, ao passo que a enorme e dispersa comunidade de trabalhadores tem muito mais dificuldade em se organizar para um boicote.

Ao aplicarmos estas reflexões à sua pergunta, a primeira condição está presente com certeza, desde que o bem em questão seja essencial. Entretanto, fica uma dúvida quanto à segunda, o cartel entre os vendedores. O senso comum nos diz que a cartelização não é tão fácil num mercado com tantos vendedores de vários tamanhos.

O caminho mais prudente é ver se pode encontrar evidências convincentes de combinação de preços entre os vendedores. Caso possa apresentar estas evidências ao público, seu plano para um boicote ganhará uma legitimidade mais ética, uma chance maior de convencer os consumidores a se unirem e uma oportunidade mais realista de obter um impacto positivo nos preços.

FONTES:
(1) Talmud da Babilônia, Sucá 34b; também Pessachim 30a e Mishná
Keritot 1:7.
(2) Responsa Tsémach Tsédek 28.

O Judeu Ético Edição N.113 - 17 de junho de 2003
Rabino Dr. Asher Meir
The Jewish Ethicist, um programa do Business Ethics Center of Jerusalem.tradução: Uri Lam (M.A. em Filosofia) - 04 de julho de 2003.

Fonte: Business Ethics Center of Jerusalem